Caso A
Dra. Cláudia tem escritório de advocacia na cidade, atua sozinha em causas trabalhistas e previdenciárias. Associada há seis anos, sempre movimentou a conta na cooperativa e nunca tinha atrasado nada até este ano. O atraso começou em um empréstimo pessoal e, dois meses depois, o cartão entrou junto.
Você fez o primeiro contato há noventa dias. Ela atendeu na hora, foi educada, disse que estava “num aperto passageiro” e pediu um prazo. Você anotou. No segundo contato, um mês depois, ela mesma deu uma data: dia 12. Foi objetiva, agradeceu a paciência. Você fechou o registro com a data e uma nota de promessa.
No dia 12, mensagem dela no WhatsApp, antes de você ligar:
“Oi, tudo bem? Então, não vai dar pra ser hoje. Tô esperando um honorário de um processo que era pra sair na semana passada e o cartório enrolou. É um valor bom, cobre tudo, mas eu dependo dele sair. Semana que vem eu te confirmo, pode ser? Desculpa mesmo, sei que você tá segurando isso aí.”
Você respondeu que tudo bem, que aguardava a confirmação. Ela não confirmou. Nas três semanas seguintes você ligou duas vezes — não atendeu — e mandou uma mensagem perguntando se o honorário havia entrado. Visualizada, sem resposta.
Hoje ela está a 120 dias de atraso. A cooperativa tem prorrogação, parcelamento e uma condição de renegociação com taxa reduzida, e as três já foram mencionadas a ela em contatos anteriores.
Caso B
Ronaldo é dono de uma pequena empresa de prestação de serviços — manutenção predial, com dois funcionários registrados e um carro da empresa alienado à cooperativa. Cliente há quatro anos, com capital de giro e o financiamento do veículo. As duas operações estão em atraso há pouco mais de dois meses.
Diferente da maioria da carteira, ele não some. Nos últimos quinze dias você falou com ele três vezes: uma por telefone, uma por WhatsApp e uma na agência, quando ele passou para resolver outra coisa. Em todas foi cordial, atento, e disse essencialmente o mesmo:
“Ó, eu vou ser sincero contigo. Meu problema é que a receita caiu. Caiu bastante. Eu tinha dois clientes que eram a base — dois condomínios grandes — e os dois trocaram de administradora no começo do ano, e a nova trouxe a empresa dela. Perdi os dois no mesmo mês. O que entra agora é serviço avulso, e serviço avulso mal cobre a folha e o combustível. Eu tô correndo atrás, tô fazendo orçamento, tenho dois grandes pra fechar, mas isso não é coisa de uma semana. Não é que eu não queira pagar. Se sobrasse eu já tinha pago, você sabe que eu nunca atrasei.”
Na conversa da agência, quando você perguntou se ele tinha ideia de quando a situação melhoraria, ele disse: “Se eu fechar um dos dois orçamentos, resolve.” Você perguntou quando teria resposta. Ele disse que “depende deles”.
Você não sabe quanto o faturamento caiu, nem qual é o valor da folha, nem quanto vale cada um dos orçamentos que ele está esperando. O carro está em dia de documentação e ele usa no serviço todo dia.
Caso C
Seu Adalberto planta café em Linha Bonita, numa propriedade da família, e é associado há onze anos. Nesse período teve custeio, investimento e conta movimentada. O problema começou há dois anos, numa safra em que o preço despencou e ele não conseguiu honrar o custeio. Renegociou. No ano seguinte, a renegociação venceu sem pagamento e foi refeita, agora com prazo maior e a inclusão de outras pendências. Também não pagou.
Hoje o saldo em atraso é de R$ 115.000,00, com dois avalistas — o irmão e um vizinho de propriedade. Ele atende todos os contatos. Nunca deixou de atender. Mas cada contato termina com uma promessa, e nenhuma promessa foi cumprida nos últimos oito meses.
Há três semanas a cooperativa mudou a abordagem: em vez de renegociar de novo, propôs encerrar. R$ 104.000,00 à vista para quitar tudo. Seu Adalberto respondeu em dois dias:
“Olha, eu gostei da conversa. Encerrar é o que eu quero também, cansei de assinar papel. Mas cento e quatro à vista eu não tenho. O que eu consigo é cinquenta agora, com o que tá na conta e uma venda que eu fiz, e mais cinquenta em duas vezes, trinta e sessenta dias, quando entrar o resto do café que tá no armazém. Cem no total. Se vocês toparem, eu assino essa semana.”
A cooperativa recusou os R$ 50.000,00 + R$ 50.000,00 e voltou com R$ 50.000,00 à vista mais R$ 56.000,00 em 30 e 60 dias — a diferença é o IOF que incide no parcelamento. A nova proposta foi enviada há cinco dias.
Ontem ele mandou mensagem:
“Recebi. Então quer dizer que se eu pagar parcelado o valor sobe. Vocês me mandaram um número, eu mandei outro, vocês mandaram um terceiro. Eu disse que fecho se compensar. Tô esperando pra ver se esse é o de verdade ou se ainda tem margem.”
Caso D
Marcelo tem uma loja de ferragens e material de construção no centro, com o cunhado como sócio. Associado PJ há três anos, com capital de giro em atraso há noventa dias. Ele nunca foi difícil de encontrar; a loja está aberta todo dia e ele está sempre lá.
A negociação foi rápida. Na segunda conversa você apresentou uma proposta de alongamento com parcela ajustada ao faturamento. Ele leu, fez duas perguntas sobre a taxa e disse que aceitava. Para gerar o contrato com a parcela certa, a cooperativa precisa do faturamento atualizado dos últimos meses. Você pediu. Ele disse que mandava.
Isso foi há duas semanas. Você cobrou o documento três vezes desde então. A resposta de ontem, por WhatsApp:
“Tá aprovado da minha parte, pode montar. O faturamento eu mando, só preciso pedir pro contador. Ele é meio enrolado, mas essa semana sai. Já mandei mensagem pra ele hoje de novo. Se quiser eu te passo o contato dele e vocês falam direto, pra mim tanto faz.”
O documento não chegou. Sem ele, o contrato não é gerado, e o atraso continua correndo. Você não sabe se o contador está de fato enrolado ou se o faturamento dos últimos meses é pior do que Marcelo deixou transparecer quando aceitou a parcela.